Amamentar reduz risco de desenvolver diabetes tipo 2

Amamentar reduz risco de desenvolver diabetes tipo 2

Estudo publicado no periódico Diabetes Care mostra que mulheres grávidas que não amamentam têm um risco cerca de 50% maior de adquirir diabetes tipo 2. A amamentação reduz substancialmente esse risco excessivo

Quando uma mulher fica grávida, o risco de desenvolver diabetes tipo 2 aumenta para o resto da vida, muito por causa do peso crescente e da resistência à insulina. “Mas um estudo novo revela que, se ela amamentar, há uma redução substancial desse risco excessivo”, afirma o afirma o Dr Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo. O estudo Parity, breastfeeding, and the subsequent risk of maternal type 2 diabetes, publicado no periódico Diabetes Care em junho do ano passado mostrou esse benefício da amamentação para a mãe. “Quanto ao bebê, a amamentação melhora a digestão e minimiza as cólicas; reduz o risco de doenças alérgicas; diminui as chances de desenvolver doença de Crohn e linfoma; estimula e fortalece a arcada dentária; além de prevenir contra doenças contagiosas”, acrescenta o médico.

Os mecanismos subjacentes a esta vantagem da lactação para as mães não são claros, mas há uma hipótese trabalhada pelos autores: a de que as células beta do pâncreas estão envolvidas. “A lactação aumenta a quantidade e a qualidade das células beta produtoras de insulina no pâncreas, provavelmente reduzindo o risco de uma mulher desenvolver diabetes tipo 2. Esse é uma característica evolucional, para proteção de longo prazo ao longo de décadas, é necessário alterar fundamentalmente alguma parte do mecanismo que controla o açúcar no sangue. A melhor maneira de fazer isso é afetando a célula beta, porque ela produz a insulina”, diz o médico. A insulina ajuda a glicose a entrar nas células do corpo a partir do sangue, mas no diabetes tipo 2, as células tornam-se resistentes à insulina e, portanto, menos capazes de absorver glicose suficiente, forçando o pâncreas a produzir mais insulina até que não consiga acompanhar e o açúcar no sangue aumente.

Em outro estudo do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia, mulheres grávidas com tolerância à glicose diminuída ou diabetes gestacional desenvolvida foram recrutadas para os testes. Cerca de metade das mulheres amamentaram seus bebês e a outra metade não (o estudo não foi randomizado). Dois meses após o parto, mães lactantes e não lactantes tinham concentrações de glicose no sangue comparáveis após um teste de tolerância à glicose (embora a glicose de jejum fosse menor em mulheres lactantes), mas três anos e meio após o parto, as mulheres que amamentaram seus bebês tiveram uma redução significativa concentrações de glicose no sangue após o teste e, o mais importante, melhor função das células beta do que aquelas que não o fizeram - algo que não havia sido mostrado antes.

Segundo o médico, as células beta podem produzir serotonina; a imunofluorescência mostrou que as concentrações de serotonina nas células beta eram 200 vezes maiores em ratos lactantes do que em não lactantes. “Por meio de uma série de experimentos em animais, a equipe supôs que a prolactina, o hormônio produzido quando humanos ou camundongos produzem leite, se liga às células beta e dispara uma cascata de sinalização que resulta na produção de serotonina, que então estimula a proliferação de células beta e a produção de insulina. Além disso, os pesquisadores descobriram que a serotonina em ratos lactantes atua como um antioxidante, ajudando a manter as células beta saudáveis”, explica.

Apesar disso, há algumas preocupações sobre os dados humanos do estudo. Diferenças nas taxas de diabetes gestacional e tratamento entre os grupos com lactação e sem lactação, bem como a duração e intensidade da amamentação não foram relatadas e todos estes desempenham um papel importante no risco de diabetes tipo 2, segundo o médico. “Apesar disso, esse é um estudo muito interessante que fornece alguns novos dados sobre mudanças na função das células beta relacionadas com a lactação em humanos que não tínhamos anteriormente”, diz.

Prevenção
A médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia, enfatiza que a mulher que deseja engravidar, se apresentar alterações metabólicas como obesidade e resistência insulínica ou histórico familiar de diabetes, deve ser orientada quanto aos riscos do desenvolvimento de diabetes gestacional e seus desfechos e encorajada a fazer mudanças imediatas no hábito alimentar como a redução no consumo de açúcares e praticar atividades físicas, para ajudar na prevenção. 

“No caso da gestante que desenvolve diabetes gestacional, essa deve ser informada de odos os riscos e consequências da disfunção, para ela e para o bebê. Orientações alimentares, como a restrição total no consumo de açúcares, farináceos refinados e alimentos ultraprocessados, e quanto importância da prática de atividades físicas frequentes e sem impacto, devem ser feitas às gestantes. Mesmo assim, diante da gravidade e riscos da situação metabólica, muitas vezes é necessário o controle medicamentoso”, afirma a Dra. Marcella.

 “Mas, ainda que seja importante a realização diária de atividade física na gravidez, é fundamental que o hábito seja orientado pelo obstetra e os exercícios sejam leves, sempre respeitando as limitações da gestante. As melhores opções de atividade física para mulheres grávidas incluem caminhada, hidroginástica, natação, bicicleta e ioga. Porém, caso a mulher sinta-se mal durante a atividade física, apresentando sintomas como tontura e náuseas, o médico deve ser consultado imediatamente para ver se a prática pode ser continuada”, finaliza o Dr. Rodrigo da Rosa Filho.

FONTES
*DR. RODRIGO ROSA: ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana e sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo. Membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), o médico é graduado pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Especialista em reprodução humana, o médico é colaborador do livro “Atlas de Reprodução Humana” da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana

*DRA. MARCELLA GARCEZ: médica nutróloga, mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRMPR, coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo.

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