27 de janeiro, 2021

Medicina reprodutiva: a ciência a favor de um sonho

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que cerca de 15% da população não consegue engravidar de forma natural por meio do ato sexual, sendo esse um possível indício de infertilidade do homem ou da mulher. Quando essa questão vem à tona para o casal, o sonho de gerar um filho pode até se tornar mais difícil de acontecer. Entretanto, com a assistência da medicina reprodutiva, é possível manter vivo o desejo de se tornar mãe ou pai, mesmo depois de tentativas frustradas de concepção natural.

“Uma mulher com 30 anos de idade tem cerca de 20% de chances de engravidar em um mês tendo relações sexuais. Aos 35 anos, essa probabilidade mensal cai para 15%, aos 40 anos passa para 5% e chega a 1% de chance de gravidez natural quando a mulher tem 45 anos. A medicina reprodutiva visa ajudar esse casal, com tecnologias embasadas no processo de fertilização in vitro”, explica o Dr. Marcello Valle, médico especialista em Medicina Reprodutiva pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e diretor médico da Clínica Origen Rio.

Além do fator idade, outras causas podem desencadear nas mulheres a dificuldade para engravidar. De acordo com o Dr. Marcello, 25% das que têm menos de 35 anos, no auge de sua capacidade reprodutiva, apresentam distúrbios de ovulação, e cerca de 20% apresentam lesão nas trompas de Falópio, onde o óvulo é fertilizado. Outra causa comum entre as mulheres mais jovens é a Síndrome do Ovário Policístico (SOP), que afeta a produção de hormônios e a ovulação, podendo causar infertilidade.

“Já a partir dos 35 anos, o grande obstáculo da fertilidade feminina passa a ser a idade. Porque à medida que o tempo passa, a reserva de óvulos diminui, reduzindo, consequentemente, as chances de concepção natural”, declara o médico. “Antes de procurar por um especialista em medicina reprodutiva, o recomendado é que mulheres com até 35 anos tentem, pelo período de 12 meses, engravidar naturalmente. Entre 36 e 40 anos, a tentativa deve ser de ao menos seis meses, e acima dos 40, devido à urgência e à necessidade de tratamento, qualquer solução que seja oferecida à paciente vai depender da qualidade de seus óvulos”, alerta.

No caso dos homens, o cenário muda. Eles começam a produzir espermatozoides durante a puberdade e essa produção vai até o extremo da vida. Por isso, podem ser pais em qualquer faixa etária, ao menos que apresentem algum sintoma de infertilidade. “Cerca de 40% dos casais que não engravidam é devido a uma alteração qualitativa no sêmen. Entre esses casos, o motivo pode ser varicocele, que é a presença de varizes no cordão espermático, ocasionando aumento da temperatura dos testículos, ou mesmo azoospermia, em menos casos, que indica a ausência de espermatozoides no sêmen”, explica Dr. Marcello.

Principais procedimentosFoi na Inglaterra, em julho de 1978, que nasceu o primeiro bebê de proveta, resultante de uma fertilização in vitro (FIV). Quase 43 anos depois, o Brasil é protagonista em tratamentos de reprodução assistida. É o que apontam os dados do 13º relatório do SisEmbrio (Sistema Nacional de Produção de Embriões), publicado em maio de 2020 pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O levantamento mostra que, em 2019, a média da taxa de fertilização in vitro nos bancos de células e tecidos germinativos (BCTG) do país atingiu o percentual de 76%, um padrão elevado diante do cenário médio internacional que exige resultados acima de 65%.

“A fertilização in vitro é o método mais realizado, cerca de 90% das ocasiões, porque a grande maioria dos casos de infertilidade não se resolve com os tratamentos de baixa complexidade, como o coito programado, procedimento em que é feita indução de ovulação com medicamentos, uma solução eficiente para pacientes com síndrome de ovário policístico”, detalha Dr. Marcello. “Na fertilização, o princípio é fazer o encontro de gametas, inseminar os óvulos com o espermatozoides e fertilizar, para que o embrião se desenvolva na última etapa e, aí sim, possa ser devolvido para a cavidade uterina e acontecer a tentativa de gravidez”, explica.

Além da FIV e do coito programado, uma terceira linha de tratamento é a inseminação, na qual o sêmen coletado do marido é injetado na cavidade uterina da mulher. “Esse método não trata causas graves de infertilidade, mas para um casal jovem, com exames normais e que está desgastado por não conseguir engravidar há mais de um ano e meio, pode ser uma boa indicação. Assim como pode ser uma opção para casais sorodiscordantes e casais homoafetivos que desejam engravidar”, declara o médico.

Mesmo com a existência de três procedimentos distintos de reprodução assistida, Dr. Marcello Valle ressalta que somente um especialista pode analisar o histórico do casal e indicar o método reprodutivo mais adequado para cada caso. De acordo com ele, vários fatores são considerados no momento da avaliação, inclusive os psicológicos. “O estresse e o medo de dar errado são um grande desafio, por isso o tratamento deve envolver psicólogos que vão utilizar mecanismos, como o mindfulness, para que todo o processo, que é realmente difícil, se torne mais fácil, por um objetivo maior. Nesse caso, a resiliência é fundamental, porque se o casal tem um sonho, ele deve ser realizado”, finaliza. Crédito da imagem: kukota – Freepik.

27 jan, 2021

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